A minha história com as emoções
- A Filha de Mercúrio

- Nov 2, 2021
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Xuxus Cósmicos,
Não escrevo isto para todos. Escrevo apenas para aqueles que por aí precisam de saber que não estão sozinhos.
Tenho ascendente em Virgem. Processo tudo pela razão, pela lógica e não gosto de coisas que fogem do meu controlo. Por isto e por uns quantos posicionamentos difíceis que tenho no meu Mapa Natal, emoções sempre foram uma coisa estranha para mim.
Sempre fui extremamente emocional. Sabem aquela expressão de sentir tudo à "flor da pele"? Pois bem, no meu caso é um eufemismo. Comigo, sentimentos e emoções, vêm de um lugar qualquer recôndito dentro de mim e são sempre tão fortes e tão intensos que crescem e se espalham, ás vezes de uma forma quase sufocante. Não importa se é felicidade e alegria ou se é tristeza e raiva, a intensidade com que se manifestam é a mesma.
Em criança obviamente que não sabia processar este tipo de intensidade. E se a coisa era "boa" perfeito, mas se era má... Aprendi desde cedo o conceito de montanha russa emocional e dei por mim muito cedo a perceber que toda essa intensidade podia fazer sérios estragos em mim ou nos que estavam à minha volta.
Isto fez com que à medida que fui crescendo, tenha começado a racionalizar as minhas emoções e a tentar controlá-las. Passei a catalogá-las como boas ou más, adequadas ou inadequadas e a gerir a intensidade com que manifestava o que acontecia dentro de mim. O início do trabalho espiritual só trouxe mais necessidade de catalogar. Na altura haviam aqueles conceitos New Age que nos davam uma ideia de que para sermos espirituais, conectados, ancorados, devíamos assemelhar-nos a pequenos Budhas que alcançaram o Nirvana e permanecer nesse estado zen de aceitação e rendição todos os dias da nossa vida.
Escusado será dizer-vos que foram anos e anos de muita frustração, de um sentimento crescente de desadequação, de insuficiência, de ineficácia, onde invariavelmente acabava a perguntar-me que raio de problema tinha eu. Não conseguia controlar nada. Acabava com explosões emocionais que levavam tudo à frente ou com crises de pânico de quase me levarem à loucura. Quando não aguentava mais e libertava tudo, a intensidade era tão grande e tão violenta que cheguei a pensar que não sobrevivia áquilo. Yup, tenho Sol em Leão, sou dramática. Ainda assim, era um dramatismo que eu sentia no corpo todo e que me tirava o ar.
Um dia estava a passear na rua e ia alienada num sentimento que andava a pesar-me no peito. De repente caiu-me uma daquelas fichas: " Como é que eu posso sentir isto se a minha cabeça não pensa isto e não quer isto?". Sabem, como é que era possível o meu enquadramento mental ser um e o meu corpo emocional estar completamente noutra? Pela primeira vez na minha vida percebi o conflito em que vivi desde sempre: a incompatibilidade entre o meu corpo mental e o meu corpo emocional.
Enquanto criança e à medida que fui crescendo, treinei o meu corpo mental para domar o meu corpo emocional e isto gerou um desequilíbrio. O meu corpo emocional, desde criança que vivia aprisionado em correntes, incapaz de se desenvolver como devia e de alcançar maturidade. Todas as minhas crises de pânico e todas as vezes em que eu achei que não iria sobreviver representaram o grito de desespero do meu definhado, dessecado e subnutrido corpo emocional. Por sorte os estragos físicos ainda não tinham ido longe demais.
Agora, ter consciência de um problema é o primeiro passo para a sua resolução, mas o passo seguinte passava por mergulhar em anos e anos e anos de um problema e desenterrar tudo o que foi enterrado durante esse tempo. Ora bem, vejam se me conseguem acompanhar. Enterrei, prendi, domei, controlei emoções porque tinha um medo de morte (literalmente) do estrago que elas podiam fazer. Não lidei com elas uma a uma. Mas agora tinha que desenterrá-las todas e libertar aquele psicopata infantil de 6 ou 7 anos das correntes, esperando que fosse meiguinho e não fizesse muitos estragos.
Uma das coisas que me foi mais difícil integrar foi como é que afinal se lida com uma coisa que nasce dentro de nós, que parece que vem das entranhas, que nos consome e quase sufoca, sem ter um episódio psicótico. Acreditem quando vos digo que não acertei à primeira (nem à segunda, nem à décima). Fiz muitas asneiras. Descontrolei-me muitas vezes no processo. Uma das coisas que me ajudou foi um dia no meio de uma conversa dizerem-me "Mas qual é o mal de te sentires assim? Se é assim que te sentes, deixa sentir. Não podes fazer nada. Vai passar". Confesso que nunca me tinha ocorrido tal coisa! Que efetivamente podia sentir. Que podia sentir raiva, dor, vergonha, rejeição, abandono. Cada vez que sentia alguma coisa destas, tentava imediatamente contrariar, ressignificar, racionalizar e substituir por uma ideia mais feliz, positiva, equilibrada. Fazia tudo o que podia, menos sentir o que estava verdadeiramente a sentir... até não aguentar mais e me rebentar na cara da pior forma.
Muitas tentativas-erro depois, percebi que na verdade não há como controlar o que sinto, nem como domar a intensidade. Posso reescrever a história e mudar-lhe a vibração. Posso fazer-me presente, consciente e respirar fundo quando vierem as memórias e as emoções mais difíceis de forma a conter as explosões ou as implosões. Mas não posso impedir-me de sentir, nem posso sentir só na medida que acho conveniente, seguro ou aceitável. E de repente descobri um novo conceito de liberdade!
Não estou curada. Talvez nunca venha a estar. Foi demasiada violência contra mim mesma, mas aprendi a ser gentil comigo e a permitir que o meu campo emocional se desenvolva de uma forma cuidada e acolhida, como qualquer criança deve crescer. Aceitei que vou cometer erros, que não vou acertar sempre e aceitei que magoei pessoas e que eventualmente, mesmo sem querer, vou continuar a magoar. Aceitei também que ninguém pode dizer-me como devo sentir. "As meninas bonitas não choram" já não me assusta. Há dias em que preciso chorar, gritar, soluçar, borrar a maquiagem toda e há dias em que preciso de um ombro para fazer isso tudo. E sem dúvida que a minha melhor forma de terapia é escrever. Escrevo até que a mão me doa. Há dias em que escrevo compulsivamente até que tudo o que sinto esteja no caderno. Há dias em que escrevo coisas más. Sentimentos maus. Há dias em que sinto raiva, desgosto, desilusão, mas esforço-me por ressignificar. Na medida em que vou podendo, vou retirando a responsabilidade dos outros e trazendo-a até mim, vou perdoando os outros e perdoando-me a mim, vou tentando reescrever aquela história com o motivo porque ela veio até mim, em vez de culpar o Universo por me ter passado a perna. À medida que vou podendo, vou encontrando na dor a qualidade da minha vibração e o que preciso alinhar e curar para que ela seja mais elevada. E o meu pequeno e endiabrado psicopata, lentamente, vai-se tornando mais crescido, mais equilibrado, mais acolhido e mais amado.
Esta é a minha história e está longe do fim, mas não é a única. Há por aí muitas crianças interiores a gritarem por ajuda e a precisarem de serem libertadas, acolhidas, cuidadas e amadas pelos adultos que as carregam. Se forem esses adultos, recebam o meu abraço apertado e saibam que não estão sozinhos.





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