Ceres & Lilith - O Resgate da Energia Feminina
- A Filha de Mercúrio

- Oct 26, 2021
- 9 min read
Xuxus Galáticos,
Desde ontem que estou para escrever sobre isto, mas tive que esperar que a Lua chegasse ao signo do meu Mercúrio para a coisa se dar. É longo, mas já sabem há momentos em que não me contenho nas palavras e serve a quem tiver que servir.
Hoje encontram-se no céu de Gémeos duas Deusas e como não é coisa que aconteça todos os dias, merece as honras que lhes são devidas.
Ceres
Está associada ao arquétipo da Grande Mãe da Terra, a que a todos provia. Mitologicamente, Ceres era a amorosa mãe de Persephone, com quem vivia feliz brindando a Terra com um ciclo infinito de fertilidade e abundância. Um dia, Hades (Plutão) raptou Persephone e levou-a consigo para o Submundo, não deixando rasto. Ceres demorou a perceber o que se tinha passado, mas assim que percebeu, cega pelo sofrimento e pela raiva causados pela perda da sua filha, destruiu todas as plantações e mergulhou a Terra numa escassez de alimentos que ameaçou a continuidade da vida dos Homens. Zeus pediu a Hermes (Mercúrio) que intercedesse junto de Hades ordenando a libertação de Persephone. Hades que não queria abrir mão de Persephone, ludibria-a de forma a consumar o casamento antes de a devolver à sua mãe. Quando Persephone regressa para Ceres e esta se apercebe do que tinha acontecido, que não poderia ter a sua filha de volta, recusa-se a levantar o ciclo de escassez que havia iniciado. Não podendo ser de Hades ou todos os humanos morreriam e não podendo ser de Ceres porque o casamento com Hades havia sido consumado, chegaram a um consenso em que Persephone passaria metade do ano com Ceres na Terra e metade do ano com Hades no Submundo, dando assim origem ao período de fertilidade representado pela Primavera/Verão e ao período de escassez representado pelo Outono/Inverno.
O mito de Ceres porém continua, uma vez que ela terá iniciado os habitantes de Eleuses nos seus mistérios como prova de gratidão por a terem acolhido. Estes mistérios estão relacionados com a vida que continua a existir durante o processo de morte numa analogia da vida da alma que desde à Terra e que retorna a casa após a morte. Da mesma forma, Persephone mesmo quando se separa da mãe e vive no Submundo, continua viva e acaba sempre por regressar. Há a perda, há a morte mas há sempre a promessa de continuidade da vida.
Lilith
O mito da Lilith tem várias versões por isso vou tentar dar-vos o fundamental. Lilith terá sido a primeira mulher de Adão e assim a primeira mulher a viver na Terra. Contudo sempre exigiu ser tratada como igual, recusando subserviência e domínio sexual sob a premissa de que ambos teriam nascido da mesma terra e do mesmo Deus. Adão não aceitou e Lilith acabou exilada no Inferno. Envergonhada, rejeitada, diminuída, zangada e cheia de raiva estabelece-se no Submundo onde terá, numa primeira fase, transformado a sua raiva em poder e desejo sexual e terá procriado e criado vários demónios que a passaram a servir. Lilith constituiu-se assim como uma mulher poderosa no Submundo, recusando toda e qualquer tentativa de a fazerem regressar ao Éden.
Existe em toda a sua história uma relação com a energia de Marte-Plutão onde a raiva reprimida, a frustração e o impulso primitivo dão origem a violência e domínio sexual. Contudo é canalizando esta energia para a fusão que se evita o seu lado destruidor e devastador. Lilith torna-se poderosa e senhora do local para onde foi exilada e por isso representa a forma como as nossas inseguranças, vergonhas, medo e submissões se podem transformar no nosso grande poder. Em suma, representa como muitas das nossas sombras podem ser transformadas, transmutadas, em poder.
Ceres, Lilith, Marte e Plutão
Ceres está associada a Marte e Plutão (Touro/Escorpião) no que respeita às dinâmicas de apego/separação e à raiva e sofrimento que daí resultam quando há resistência. Ensina-nos sobre entrega, sobre rendição, sobre como mais tarde ou mais cedo somos obrigados a abdicar do controlo para encontrarmos um consenso que nos trás paz e abundância.
A Lilith, tendo ficada conotada como demónio poderoso do submundo, está associada a Marte e Plutão pela raiva reprimida que se transforma em poder. É quando enfrenta as suas sombras, quando se apodera delas, quando as integra como suas e quando as aceita, que estas perdem poder sobre si e a empoderam ao ponto de se tornar Senhora do Submundo, hoje apelidada de Demónio tal foi o poder que alcançou.
Tanto Ceres como Lilith, ensinam-nos sobre como o sofrimento, a angústia e a raiva provenientes das mortes, das separações e das rejeições podem ser transformados em poder através da aceitação e da vontade. Os arquétipos servem precisamente para nos ligar a sombras coletivas que existem em cada um de nós e através dos dois arquétipos, conectamo-nos simbolicamente aos traumas de rejeição, de abandono, de domínio, de apego, de subserviência, de anulação, de insuficiência que estão intimamente ligados com a energia feminina.
O Resgate do Feminino
Cada uma das Deusas à sua maneira desperta um Arquétipo da mulher selvagem.
Ao contrário do que nos é passado há 2000 anos, a energia feminina não é calma, serena e submissa. Ela é o fogo ardente que está na origem de toda e de qualquer criação. A energia feminina é a que transforma a semente em vida. É no ventre que se gera vida; é no fundo da mente que nasce a ideia original e é a partir desse lugar que ela começa a ganhar forma; é no escuro, dentro da terra húmida que a semente se desenvolve e se criam as raízes, antes de a planta brotar para o mundo. Portanto, ser recetiva não quer dizer que é parada ou estagnada, quer dizer que acolhe e opera internamente. É a que opera no escuro, no quente, no invisível, nos reinos profundos, secretos, escondidos e misteriosos da nossa existência, mas é dinâmica, é alquímica e é transformadora.
Muitas mulheres foram queimadas em fogueiras para que esquecêssemos e deturpássemos o poder da energia feminina e por isso, ainda hoje mulheres e homens temem o poder desta energia. Permitam-me ressalvar que, independentemente do género, cada ser humano contém em si energia feminina e energia masculina e que é da harmonia entre ambas que vem muito do nosso equilíbrio. As duas estão a ser mal vividas, as duas foram deturpadas, mas esse foi o preço a pagar pelo desequilíbrio que se gerou. É comum culparmos a sociedade patriarcal pela subversão da energia masculina, mas temos que ir muito mais atrás para perceber o que aconteceu e não vou entrar por aí agora. O que quero deixar claro é que, como em tudo no Universo, a culpa não foi dos homens ou da sociedade. Nem sequer há culpas. Há processos evolutivos e processos de regulação homeostática que ocorrem naturalmente. Encontrar culpados é alimentar uma raiva coletiva e perpetuar um padrão de consciência que já não nos serve para nada. Compreendam que uma das transições que estamos a fazer, é limpar os nossos campos emocionais e psicológicos para que possamos iniciar uma nova fase onde a dor pode ter lugar, mas onde o sofrimento será muito menor resultado da autonomia e autorresponsabilização que estamos a ter que assumir pelos nossos processos e por o que atraímos para as nossas vidas. A partir do momento em que assumirmos que tudo é experiência, que tudo é aprendizagem e que tudo faz parte de um processo muito maior do que nós mesmos, mas onde cada um de nós tem um papel individual na criação da sua realidade e na criação das experiências que escolhe viver para que a sua alma evolua e cumpra o caminho a que se propôs, o sofrimento passa a ser muito menor porque só nos podemos "culpar" a nós. E se formos os seres conscientes que estamos a trabalhar para ser, compreendemos que não há culpa. Há sim uma alma a viver experiências humanas que nunca antes foram vividas desta maneira e a desbravar um caminho que nunca antes foi desbravado nestas condições e com estas ferramentas.
Mas voltando à energia feminina, ela é o que nos liga a um lugar de Sabedoria dentro de nós que, por sua vez, nos conecta à Sabedoria do Cosmos. Escorpião, signo feminino ligado ás emoções profundas, aos cantos escuros da nossa psique, é para mim a grande entrada para este portal. E é através deste portal que passamos de seres rastejantes cheios de veneno prontos a picar sempre que nos sentirmos ameaçados, a Fénix que é consumida pelo fogo da transformação, para logo de seguida nascer mais sábia, mais intuitiva, mais mística e mais mágica do que nunca. Escorpião é o nosso ritual de iniciação nos mistérios da vida interna, nos mistérios e nos rituais sagrados que nos conduzem ao centro de nós e que nos fazem levar os nossos corpos psicológicos e emocionais para a purificação e transformação que nos permitem adentrar na vida invisível.
Talvez tenhamos aprendido que o divino reside fora de nós e essa foi só mais uma forma de deturpar o poder masculino e feminino e de nos desviar do caminho. O divino reside dentro de nós e em tudo o que é e que existe, em toda a vida, em toda a matéria, em tudo o que é visível e invisível. O portal para o divino reside no nosso coração que precisa manter-se puro, livre de toxinas, livre de apegos, de desejos e de toda e qualquer vontade que não seja aquela que nos vem da alma, da nossa bússola interna e que nos comanda rumo à melhor versão de nós mesmos, rumo ao nosso melhor potencial, aquele que transforma chumbo em ouro, aquele que rompe com os padrões e que move as montanhas para que o Céu se manifeste na Terra.
Novas e "Antigas Gerações"
Cada geração tem um propósito neste grande plano de construção da Nova Terra. Plutão em Balança vêm estabelecer um novo paradigma relacional. Plutão em Escorpião vêm limpar traumas e carmas do passado. Plutão em Sagitário vêm libertar a sociedade dos velhos paradigmas. Plutão em Capricórnio vêm estabelecer uma nova ordem social. Plutão em Aquário contruir um novo mundo, mais justo, mais igualitário e mais fraterno. E podia continuar com a lista passando pelas gerações de Neptuno e de Úrano.
O que importa é que vivemos um tempo em que o velho precisa de ficar para trás e em que cada um precisa de cumprir a sua missão. O que importa é que vivemos dias, tempos em que estamos a resgatar as energias feminina e masculina originais e primordiais. Como dizia Maria Flávia de Monsaraz, precisamos regressar ás origens, aos ensinamentos antigos e perceber a sua essência para que os possamos reaplicar agora nesta nova fase de construção de uma nova era.
Precisamos transformar-nos, purificarmo-nos, ressignificarmo-nos e quando duas Deusas se encontram nos céus sabemos que precisamos resgatar o arquétipo da mulher selvagem, da Bruxa, da Sábia, da Loba, da Anciã, da que se conecta com a Terra, a que compreende os ciclos naturais de vida e de morte, a mulher selvagem que fala com as estrelas e recuperar a sabedoria antiga que se perdeu no dia em que nos desconectámos de nós mesmos, dos nossos ciclos naturais e da vida. E para isso precisamos morrer. Precisamos abandonar o que conhecemos, o que nos mantém presos à matéria, os egos, os poderes falsos e deturpados e resgatar o nosso poder original: o poder da sabedoria e do Amor.
Wraping up...
As duas Deusas encontram-se em Gémeos que é sobre informação que não é processada ou analisada, é sobre trocas, sobre grupos e movimentos sociais, sobre flexibilidade e abertura a novas ideias. Podemos nos próximos dias esperar muita troca de informação, muita informação nova a surgir, um "desenterrar" de informação e muitas opiniões a escalar porque se nos querermos afirmar em algum lugar temos que ter uma opinião. Se não queremos ficar de fora, se não queremos ser exilados, temos que participar nos debates. E podemos esperar debates, incertezas e alguma inflexibilidade por parte dos detentores de poder ou dos influentes que podem tentar afastar aqueles que não partilham das suas opiniões. O que vos digo é que peguem na informação e que a processem, que a sintam no centro do vosso peito, que percebam o que ressoa ou não convosco e que não tomem decisões com base na necessidade de aceitação, validação ou pertença, mas sim na vossa verdade interna. A regra é sempre: se não traz paz ao vosso coração, se faz contrair, se causa constrangimento ou desconforto, precisa de ser acessada, integrada e validada pela única autoridade à qual devem responder, a vossa consciência.
Estamos num enorme processo de cura, purificação e transformação. Por estes dias pouco do que parece, é. Podemos estar a usar as belas das lentes cor de rosa que fazem tudo parecer glamoroso e ao jeito de Holywood. Bênçãos também estão a caminho e tantas mais quanto mais nos conseguirmos sintonizar com a frequência de amor que tudo aceita, tudo ama e tudo acolhe. Mas precisamos urgentemente assumir a nossa responsabilidade neste grande palco e de pararmos de nos autossabotar com crenças de que não somos suficientes, não temos poder suficiente e enfim... de nos subjugarmos, de aceitarmos ser dominados pelas forças internas ou externas da nossa vida. O Sol quando nasce é para todos e o poder que existe é de todos. Está ao dispor para ser canalizado na sua forma mais elevada, pelos motivos certos, tendo por base os valores corretos. Nós só temos que ter coragem e ser gentis.
Conhecem aquela expressão "num mundo de Evas, sejam Liliths"? Pois bem, é isso. Tenham coragem, sejam gentis e recuperem o poder do qual abdicámos. No fim as únicas pessoas a quem teremos que prestar verdadeiras contas será a nós mesmos. São as contas da vida e do carma que criamos para as nossas vidas e para o Universo.





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