Plutão/Escorpião - A Morte, a Cura e o Renascimento
- A Filha de Mercúrio

- Apr 26, 2021
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Á medida que o dia avança e a noite se aproxima começamos a sentir a picada do Escorpião. Não só porque em menos de nada acontece a Lua Cheia que lhe cabe, mas também porque o seu regente se prepara para "mudar de direção". Na verdade não muda, nós é que, da perspetiva da Terra, o começamos a olhar de outra forma e acho isto tão simbólico porque também nós nos estamos a preparar para mudar: a nossa visão, a nossa pele, a nossa vida.
Por posicionamentos natais pessoais, sempre tive esta energia muito presente na minha vida. Já desci ao Inferno algumas vezes e já quis ficar por lá outras quantas. Na maioria das vezes, a sensação com que fico é a de que só faltou arrancarem-me os olhinhos, porque até a pele parece que lá ficou. E talvez tenha mesmo ficado. Mas os olhos não. A visão está sempre ativa, mantendo-me com uma perceção aguçada e estupidamente vívida do veneno que corre dentro de mim e que me corrói cada recanto da existência. Plutão é assim! Escava, corrói, destrói com uma lentidão que o torna quase impercetível... até que deixa de o ser. E aí dá-se a destruição e o arrancar do que julgávamos ser a nossa pele. Quando damos por ela já não temos como voltar atrás. Quando damos por ela, estamos ajoelhados no chão, rendidos ao poder do Senhor das Trevas.
Esta é a fase mais difícil, a que nenhum de nós gosta, a que lutamos e resistimos com todas as nossas forças para que não aconteça... até que acontece, porque Plutão é muito mais forte do que o nosso ego e quanto mais resistimos, mais dói, mais fere, mais violento se torna. Podemos tentar fugir, podemos tentar esconder, podemos tentar atirar com os nossos segredos mais sombrios para o fundo da nossa psique, que Plutão vai descobri-los, vai agarrá-los por uma orelha e vai trazê-los para um lugar onde tenha a certeza que os vamos ver e sentir com toda a clareza. Ninguém foge a Plutão!
Contudo, é precisamente quando desistimos de fugir e quando nos rendemos ao Senhor que a magia acontece. É que Plutão só corrói e destrói o que nos é tóxico, o que não nos serve e o que nos impede de caminhar para a nossa versão mais iluminada. Portanto, depois de o veneno fazer o seu trabalho, quando é libertado, a sensação que temos é a de estarmos purificados, curados e prontos para renascer numa nova pele, uma pele que tem mais a ver com a nossa essência e que serve melhor o nosso propósito na vida. A nossa nova pele tem mais poder, nós temos mais poder e não é um poder superficial. É um poder visceral que vem do centro do nosso Ser.
É por isso que se aprende a amar os processos plutónicos/escorpiónicos. Não porque somos masoquistas e achamos piada a andar a passear pelas terras do Senhor dos Chifres, mas porque somos seres de luz e aprendemos que só há luz se houverem trevas. Aprendemos a aceitar os ciclos da vida e as mortes necessárias à evolução. Evoluir pressupõe sair do sítio onde se está. E sair do sítio onde se está significa deixar alguma coisa para trás.
A ideia que se criou de que o caminho do espírito é feito de fadas, luzinhas e pózinhos de perlimpimpim é só uma parte da história. Nesse caminho também há noite, há trevas, há fogos que ardem e que queimam, há lutas e há mortes. Assim como a ideia de estabilidade que culturalmente nos foi passada, uma estabilidade que vem da matéria e que pressupõe uma vida imutável, que não se transforma e que atinge o seu culminar antes de fazermos 30 anos também é uma história mal contada.
Então, à medida que a picada vos for doendo mais e que o veneno se for espalhando pelo vosso corpo, permitam-se sentir em processo de tratamento, de cura. Desliguem da vossa tomada as fichas que vos ligam aos velhos e obsoletos programas que vos foram transmitidos e/ou a que se agarraram quando não tinham mais ao que se agarrar. Muitas vezes, a dada altura das nossas vidas, agarramo-nos ao que podemos para sobreviver e está tudo bem. Mas depois, passada a fase de perigo, feita a homeostase, reformulamos a programação para não recairmos num ciclo de doença.
É certo que alguma coisa vai ficar para trás e o que fica para trás pode deixar saudades, pode custar a largar, pode trazer um turbilhão de memórias difíceis de digerir, uma melancolia que nos pesa no peito porque sabemos que não podemos voltar atrás, um sentimento de impotência porque sabemos que não há nada a fazer e que nada voltará a ser como era. Mas vou contar-vos o meus segredo: aceitação. Quando se renderem ao processo e o aceitarem com o centro do vosso peito, vão descobrir a força do vosso poder a nascer do mesmo lugar e a espalhar-se por todo o vosso Ser. Trata-se de aceitar o inevitável, então para quê resistir? Quando Plutão entra na área, acharmos que temos escolha e que ainda podemos salvar o que quer que seja é pura ilusão ou negação. A boa notícia é que quando Plutão entra na área, é para nos salvar a nós!
Meus queridos, permitam-se curar e permitam-se renascer. Nada se perde definitivamente, nós é que nos transformamos. Somos seres criadores, alquimistas desta vida e fazemos isso através da alegria e do amor. Então, dancem com a vida, façam amor com a vida, permitam que a alquimia aconteça e que Plutão vos devolva o que é vosso por direito.
Corações ao alto, poder no centro do peito e que venha daí esse veneno!

Foto: Instagram @nicebleed




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